Nenhuma empresa de tecnologia foi dominante por mais de um ciclo, já disse Bill Gates, na época chairman da Microsoft, em referência ao desafio da empresa em se manter no topo quando o ciclo do PC chegasse ao fim. Mainframe e PC são ciclos fáceis de entender. O primeiro teve o domínio da IBM. O segundo, da Microsoft. Será que o novo ciclo é o da cloud computing? E quem vai dominá-lo?
Se cloud é o novo ciclo, a Microsoft quer estar na liderança. A passagem do CEO Steve Ballmer pelo Brasil, no fim de abril, deixou claro que a conquista do mercado de computação em nuvem é imperativa para a companhia. Mesmo não sendo ela a precursora do conceito. E os lançamentos dessa semana na Worldwide Partner Conference, realizada anualmente para desenvolvedores, confirmam o redirecionamento da empresa nessa direção.
Uma versão online das aplicações de seu Customer Relationship Management (CRM) Dynamics será liberada para venda, a partir de setembro, pelo site Dynamics Marketplace. E a plataforma de cloud computing Azure para data centers, vendida desde fevereiro último pelo modelo de software como serviço (SaaS), terá uma versão pré-instalada em servidores Dell, Fujitsu e HP.
“Logo a venda de software será passado e o serviço em nuvem será mais lucrativo”, afirmou o CEO aqui em São Paulo, lembrando que mesmo uma eventual queda do preço do software nas modalidades aluguel e “pague pelo consumo”, em comparação ao preço da venda de licenças e caixinhas, deverá ser compensada por uma maior quantidade de clientes.
“Quem acha que software é sempre igual, morre. Estamos mudando porque o consumidor quer assim˜, reitera o executivo que, no início da semana,
Nos últimos meses, Ballmer tem tecido odes às oportunidades de negócios a partir da nuvem, baseado no uso da internet e seu potencial de conectividade. “A nuvem é nossa maior oportunidade de fazer dinheiro”, declarou, sem cerimônia na última visita ao Brasil.
A fala deixa transparecer aquela que pode ser a maior das razões para a empresa não ter iniciado a onda cloud computing: seu faturamento, que reflete um modelo de negócios adotado décadas atrás, quando o caminho para ser uma empresa de 50 bilhões de dólares era atender as corporações vendendo software.

A estratégia da Microsoft foi buscar ser reconhecida como parceira estratégica dos departamentos de TI. Com apetite voraz. Hoje, praticamente 80% da receita da Microsoft continua vindo da venda de software para o mercado corporativo, incluindo aí as receitas com o Office, responsável pela maior fatia do bolo, e com sistemas operacionais, em queda nos últimos três anos, passando a representar menos de 20% do total.
Em 2009, a crise econômica mundial foi apontada pela Microsoft como um dos motivos do recuo ainda mais acentuado da receita com a venda de sistemas operacionais, principalmente em OEM. Em contrapartida, a mesma crise fez cloud computing ganhar muito mais atenção, por tratar-se de uma forma de redução de custos (com virtualização e software como serviço “empacotados” em cloud services).
Pressionada pelos acionistas, a Microsoft tomou a decisão de, “em vez de lançar produtos inovadores, investir na oferta de soluções que as pessoas realmente usem”, nas palavras do próprio Steve Ballmer.
Começou então a migrar para a nuvem. E se viu diante de novos desafios. Entre eles, superar a percepção do mercado de que deixou de inovar e de que está em desvantagem frente a concorrentes como Amazon, Google, VMware e Salesforce.com.
Maior diversidade de produtos
Às críticas quanto ao fato de estar em desvantagem frente à concorrência, por ter chegado depois, ou por ter começado apenas adaptando seus produtos para a nuvem, a Microsoft responde com o argumento de que tem hoje a maior diversidade de produtos prontos para ela, incluindo os mais populares: Windows, Exchange, Office e SharePoint.
“Falamos de nuvem há muito tempo,desde a entrada do Ray Ozzie, arquiteto-chefe de software, em 2005. E podemos considerar que aprendemos a gerenciar a nuvem gerenciando milhões de contas de Hotmail, há mais de 12 anos”, afirma Osvaldo Barbosa de Oliveira, diretor-geral da área de consumo e online da Microsoft Brasil, divisão responsável pela estratégia do Windows Live Messenger.
Em 2009, toda essa experiência no gerenciamento de webmail foi transferida para o Microsoft Exchange Online, um dos lançamentos mais importantes da companhia para cloud computing, junto com o BPOS-Business Productivity Online Suite e o SharePoint Online.
Para 2010, a meta da Microsoft é ampliar sua participação no mercado da nuvem em 53%. Contará com o reforço da plataforma Windows Azure, que a empresa diz ser um conjunto abrangente de serviços de armazenamento, informática e infraestrutura de rede.
Na prática, Azure é a resposta da Microsoft para aqueles que não conseguem ver inovação nos produtos da empresa, no melhor estilo “não lançamos tendências, mas sabemos transforma-las em um mercado relevante”.
A plataforma Azure está disponível no Brasil desde o início de abril, junto com o BPOS. A solução é composta basicamente pelo Windows Azure, sistema operacional na nuvem e o SQL Azure, banco de dados relacional, também executado na nuvem. E revela mais uma aposta da companhia. A de que as aplicações em nuvem vão precisar de sistemas operacionais para rodar pelo menos nos próximos 20 anos, segundo Ballmer. Entre outros lançamentos importantes no ano fiscal de 2010 estão o Windows 7, o Office 2010, o Windows Azure, Windows Server 2008 R2, o Windows Mobile 6.5 e o Silverlight 3.0.
E com lançamento previsto para o fim de 2010, provavelmente já no início do ano fiscal de 2011, o sistema operacional Windows Phone 7 estenderá todas a facilidade de nuvem à plataforma mobile. Todo o contingente de dados ficará salvo no que a Microsoft denomina de PC – Personal Cloud – ou seja, nuvem particular, fazendo referência ao SkyDrive, espaço virtual para armazenamento, atualmente de 25 GB, acessível pelo acesso à conta live ou Hotmail. No lugar de vários ícones, a interface do Windows Phone 7 exibe agrupamentos (ou pastas), chamados de hubs. Um exemplo de hub pode ser um grupo de amigos do Facebook com os quais o usuário quer repartir determinadas mensagens. A sincronização de dados com a agenda do Exchange também deverá ser possível.
Inovação, sim
“A inspiração para o que estamos fazendo agora começa com a nuvem”, afirma Ballmer, ao revelar que, hoje, 70% dos 40 mil profissionais responsáveis por desenvolvimento da empresa projetam exclusivamente para a “nuvem”. E esse percentual deverá crescer para 90% em um ano. O montante investido em pesquisa e desenvolvimento deverá ser 10% maior do que os 9 bilhões de dólares aplicados em 2009. E inclui o Microsoft Research focado principalmente em esforços de mais longo prazo, capaz de empurrar as fronteiras da tecnologia digital, como o projeto Natal, para a área de entretenimento, e o novíssimo Fuse Labs, que com menos de um ano de idade, cria tecnologias que aproximam a Microsoft das redes sociais.
São obras do Fuse o Docs para Facebook, o Twitter Bing Maps e o Social Outlook Connector, integrado ao Offi ce 2010, lançado em maio. E o recém-anunciado Spindex, agregador de redes sociais.
“A computação na nuvem está redefinindo a maneira pela qual usamos a tecnologia, impactando positivamente a vida das pessoas, em casa e no trabalho”, afirma Ballmer.
Naturalmente, tradicionais empresas de consumo, com negócios nascidos na web, como Amazon e Google, impulsionaram a onda cloud. Produtos como Google Apps for Business, mais baratos que o Exchange Online, andam afetando a participação da Microsoft no mercado de pequenas e médias empresas, muito impactado por preço e por hábito de uso. Portanto, não se espante de ver um aumento substancial da presença online da Microsoft também no mercado de consumo.
Hoje, a face mais visível da empresa na internet se resume a três produtos: o Windows Live, o Bing e o portal MSN. O Windows Live está ligado à divisão Cliente, que cuida dos sistemas operacionais. Já a divisão de Busca Online contempla o MSN e o Bing, e está mais focada no mercado de publicidade, hoje o patinho feio da companhia em relação a resultado.
“O investimento da Microsoft na internet como negócio é grande. Não estaríamos investindo tanto no Bing se não fosse tão relevante. Se não tivesse uma importância estratégica”, comenta Osvaldo Barbosa de Oliveira.
A receita do Bing ainda é pequena, compatível com sua participação de mercado, em torno de 11%. “Teremos 27% talvez 30% de participação depois da junção com o Yahoo, quando os números de balanço refletirem a parceria anunciada em 2009”, comenta o executivo.
O horizonte aponta para uma presença maior também no segmento de mobilidade. “Uma das coisas mais importantes que vamos fazer este ano é desenvolver dispositivos baseados no Windows 7 (tablets) e no Windows Phone 7 (smartphones). Serão produtos que as pessoas ficarão orgulhosas de levar para casa e que poderão ser usados em diversos cenários dentro das empresas”.
Se o reposicionamento da companhia será bem-sucedido, só o tempo dirá. É uma mudança de longo prazo. Até lá, a Microsoft se esforça para vender bem o peixe de que está posicionada para atender a necessidade dos clientes, caso eles continuem optando pela compra da caixinha, pela compra de licenças ou decidam migrar para a nuvem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário